O personagem
De aluno inspirado a educador que inspira
Nascido em 1995, em Manaus (AM), Leonardo Nunes escolheu a docência depois de encontrar, nos professores da própria faculdade, referências para sua trajetória. A influência dos educadores foi decisiva para que reconhecesse o papel do ensino na formação de pessoas e profissionais.
Leonardo concluiu o ensino médio em 2013, na Escola Maria da Luz Calderar. Formado em Administração, especializou-se em Docência do Ensino Superior e também possui formação em Gestão e Tutoria no Ensino a Distância. Tem experiência na orientação de trabalhos de conclusão de curso (TCCs) e artigos acadêmicos.
Seu envolvimento com a educação inclui ações em parceria com organizações não governamentais (ONGs) e instituições. Atualmente, atua como instrutor de treinamento para jovens aprendizes em Manaus, contribuindo para a formação de quem inicia a vida profissional.
Em entrevista por videochamada ao Além da Manchete, conduzida por Thaís Ferreira em 26 de outubro de 2026, Leonardo abordou desafios que vão além dos conteúdos curriculares: a atenção às questões pessoais dos alunos, a influência da tecnologia no aprendizado e o reconhecimento social dos professores.
Leonardo Nunes é administrador, especialista em Docência do Ensino Superior, com formação em Gestão e Tutoria no Ensino a Distância. Atua na capacitação de jovens aprendizes em Manaus.

A conversa
A entrevista, em perguntas e respostas
Da vocação aos desafios das novas tecnologias, o professor responde às perguntas de Thaís Ferreira. As falas foram editadas para clareza e fluidez, sem alterar o sentido das declarações.
— O que levou você a escolher a carreira de professor e o que o motiva a permanecer nela?
LEONARDO NUNES
Eu decidi seguir a carreira como professor mais por conta da minha experiência e da minha vivência dentro do contexto educacional.
Descobri isso quando estava na faculdade. Eu observava meus professores e eles, de certa forma, foram uma inspiração para mim, até hoje. A partir daquele momento, decidi que também seria professor. Entendo a importância da educação e o quanto ela é necessária. Isso foi um ponto a mais para despertar meu interesse em lecionar.
— Além das motivações pessoais, sabemos que a docência enfrenta diversos desafios. Atualmente, qual é o maior desafio que você enfrenta na sua rotina como professor?
LEONARDO NUNES
Eu sempre falo que todo dia é um desafio, por conta das mudanças que ocorrem no mercado. Hoje, vejo que um grande desafio é o fator tecnológico. A tecnologia acaba sendo uma ferramenta que auxilia, mas, ao mesmo tempo, pode ser prejudicial dentro do processo educacional e do desenvolvimento que o aluno precisa percorrer.
Outro desafio é conciliar a educação com questões sociais. Muitas vezes, nem sempre somos vistos apenas como professores. Às vezes, somos amigos para esses alunos. Em outras situações, podemos ser alguém em quem eles depositam confiança, como se fôssemos uma pessoa da família. Eles compartilham questões muito pessoais.
Isso é desafiador porque, além de lidar com os conteúdos e com aquilo que precisamos seguir dentro da grade curricular, também temos que lidar com interesses pessoais e individuais. Essa realidade exige de nós uma compreensão maior sobre como lidar com essas questões e com as individualidades dos estudantes.
— Na sua opinião, os professores brasileiros recebem o reconhecimento e a valorização que merecem atualmente?
LEONARDO NUNES
Eu acredito que nós estamos em um processo de avanço, mas ainda não somos totalmente reconhecidos.
Tenho essa percepção considerando questões salariais e também a maneira como nosso trabalho é visto dentro da sala de aula. Às vezes, esse reconhecimento não precisa necessariamente acontecer de forma financeira, apesar de esse também ser um ponto importante. Pode ser uma fala, uma demonstração de reconhecimento ou até mesmo uma premiação.
Sinto que ainda não somos reconhecidos como deveríamos porque existe uma visão muito distorcida do professor, como se fôssemos apenas profissionais executores. É como se nossa responsabilidade fosse simplesmente chegar à sala de aula, apresentar o conteúdo e não dar a devida importância ao aprendizado.
Estamos nesse processo de desenvolvimento, mas ainda existem pontos que precisam ser adequados para que possamos alcançar uma maior eficiência em nosso trabalho. Afinal, somos profissionais que também participam da formação de outros profissionais.
— Como as mudanças no comportamento dos alunos e o avanço da tecnologia têm impactado o trabalho dos professores em sala de aula?
LEONARDO NUNES
É interessante falar sobre isso porque hoje podemos colocar o fator tecnológico como um dos principais desafios. Sabemos que existem ferramentas que contribuem para a educação, mas muitos alunos ainda não sabem utilizá-las adequadamente.
Entendemos que a tecnologia é um recurso que já está presente nas empresas, no mercado de trabalho e também no ensino. Entretanto, os alunos tendem a querer utilizar a inteligência artificial para tudo.
Por exemplo, uma atividade é passada em sala de aula e, em vez de desenvolverem o que foi solicitado, os estudantes reproduzem a solicitação em uma ferramenta de inteligência artificial, recebem uma resposta e simplesmente replicam aquele conteúdo. Isso acaba se tornando um desafio para o processo de aprendizagem.
“Os alunos tendem a querer utilizar a IA para tudo.
Leonardo Nunes, sobre o uso de inteligência artificial
— Se você pudesse mudar algo na educação brasileira para melhorar as condições de trabalho dos professores, o que mudaria e por quê?
LEONARDO NUNES
Vou responder com base na minha realidade. Vejo que falta um pouco mais de atenção à capacitação dos professores, principalmente quando consideramos as mudanças que acontecem no mercado. Essas transformações impactam diretamente a maneira como conseguimos oferecer aos alunos um ensino satisfatório e de qualidade.
Por isso, considero importante investir na capacitação dos professores dentro do contexto tecnológico. Mas não basta apenas oferecer formação. É necessário que as instituições também disponibilizem ferramentas, recursos e suporte para que os professores possam utilizar essas tecnologias.
Outro ponto seria trabalhar com turmas menores. Hoje, temos turmas com uma média de 40 a 50 alunos, dependendo do curso. Nessas condições, o professor não consegue oferecer uma atenção tão específica ou realizar um acompanhamento mais próximo de cada estudante. Acredito que reduzir esse quantitativo para aproximadamente 20 a 25 alunos seria o ideal. Isso permitiria um envolvimento maior e um acompanhamento mais cuidadoso durante o processo de aprendizagem.
É necessário pensar também no lado do professor. Ele precisa planejar suas aulas, corrigir avaliações e esclarecer dúvidas. Entretanto, existe uma questão institucional importante: ao reduzir a quantidade de alunos por turma, provavelmente as instituições precisariam contratar mais professores, o que gera outros desafios. É uma questão complexa, que envolve diferentes necessidades.
Também acredito que precisamos preparar melhor os estudantes desde a educação básica. O ensino fundamental e, principalmente, o ensino médio deveriam apresentar aos alunos algumas das situações que eles encontrarão posteriormente na universidade. É importante que esses estudantes não cheguem ao ensino superior sem compreender o funcionamento do ambiente universitário e as responsabilidades que terão durante sua formação.
Isso também envolve a utilização consciente dos recursos tecnológicos no processo de aprendizagem. Poderíamos desenvolver metodologias que ajudassem os estudantes a compreender que, após o ensino médio, começarão a construir sua trajetória profissional. Outra iniciativa interessante seria a implementação de testes vocacionais, ajudando os alunos a conhecer melhor seus interesses, suas habilidades e as áreas profissionais que desejam seguir. Acredito que essas mudanças poderiam contribuir significativamente para a formação dos estudantes e para o trabalho dos professores.
Para além do conteúdo
Ao refletir sobre a profissão, Leonardo Nunes destaca que o trabalho docente também envolve escuta, orientação e responsabilidade com as trajetórias de quem aprende. Suas respostas ajudam a compreender por que discutir a educação brasileira exige olhar tanto para o cotidiano dos professores quanto para as condições em que o ensino acontece.
Nota editorial: entrevista realizada por videochamada em 26 de outubro de 2026. Perguntas e respostas organizadas e editadas para correção gramatical, concisão e legibilidade, com base na gravação e na transcrição da conversa. As estimativas de tamanho de turmas apresentadas são relatos do entrevistado, não dados nacionais.
